Já não tenho mais medo da vida ou da morte,
Não tenho medo da dor.
Tenho medo do marketing que o capitalismo pode fazer com o luto, medo de que ele faça parecer que a cura pode ser comprada,
Acredite, não pode.
Tenho medo de nunca mais querer deixar a luta mesmo quando a paz me faz o convite,
Medo de quando saio e não sinto vontade de voltar para a casa,
Medo quando não já não sinto mais a cama tão confortável como ela é,
Medo de acreditar que a guerra é normal.
Não medo do desamor alheio, mas do meu próprio.
Medo do viril – daquilo que só tem músculo mas não tem força,
De buracos abertos pelo fundo do vazio e não pelo crescimento de raízes.
Medo de esquecer o gosto de bolo de aniversário misturado com refrigerante.
De não ter mais vontade de beijo na boca,
Receber pessoas em casa,
Pentear o cabelo ou passar batom, como minha avó bem me ensinou.
De acordar e não ter mais quem me ensine algo,
Da falta de paciência para escutar e aprender,
Da falta de paciência para escutar e ensinar.
De nunca mais conseguir olhar no olho.
Medo da poesia calculada,
Da loucura cheia de botox,
Da beleza comprada.
Medo das coragens encapsuladas,
Da falta de busca,
Do julgamento perpétuo,
Não da pena de morte, mas da pena de vida.
Medo das verdades absolutas.
De todos eles que
No fundo
Morrem de medo.
Arte: colagem feita pela autora.
